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O ETERNO REI DAS PISTAS

Quando se fala da história do automobilismo mundial, logo pensamos em Le Mans, uma pista lendária, que glorificou pilotos e máquinas através dos anos. A prova de longa duração mais famosa do mundo, com sua largada característica, foi palco de vários duelos entre bólidos da velocidade, destacando-se entre eles um carro que se tornou sinônimo de vitória: o Ford GT 40.

 Mas antes de falar do carro, vamos saber um pouco mais da corrida. A primeira edição ocorreu entre os dias 26 e 27 de maio do ano de 1923. Os franceses levaram a melhor, faturando a primeira colocação a bordo de um Chenard-Walcker, uma pequena marca que fecharia as portas vinte e três anos mais tarde. 

Nessa primeira década, a prova foi dominada – basicamente – por três marcas de prestígio européias: Bentley, Bugatti e Alfa Romeo. No final dos anos 30, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a disputa foi suspensa por dez longos anos. Os amantes da velocidade só veriam os carros acelerando novamente em 1949.

Entrando pela década de 50, novas marcas surgiram no cenário francês. Entre elas, se destaca a inglesa Jaguar, que venceu a corrida nada menos do que quatro vezes no período. Curiosamente, o pior acidente da história de Le Mans teve a participação de um carro da marca, em 1955, e vitimou mais de 80 espectadores.

No início da década de 60, a Ferrari dominava o cenário automobilístico e reinava soberana nas pistas européias. A Ford tinha como um de seus objetivos a idéia de fabricar um concorrente à altura da rival italiana, principalmente para correr em Le Mans. Afinal, em três décadas, nenhum fabricante norte-americano havia sido vitorioso por lá.

Para transformar esse ambicioso projeto em realidade, Lee Iacocca convocou um time de engenheiros e pilotos para desenvolver o novo carro. Entre eles estava o mítico Carroll Shelby, um texano que tinha gasolina nas veias.

 Mas antes de pensar em um carro desse nível, a gigante norte-americana tentou – sem sucesso – comprar a empresa italiana. O comendador Enzo respondeu com um ríspido “não” à proposta e acabou por ferir o orgulho ianque. Se não poderiam comprar a Ferrari, então teriam que vencê-la. E o projeto tomou forma. 

Após dois anos de pesquisa e trabalho duro, em 1964 foi criado o GT 40. Quatro letras que iriam mudar para sempre a história do automobilismo mundial. O bólido ficava a 40 polegadas do chão, por isso a escolha técnica do numeral. Os engenheiros optaram pelo motor V8, de 4,7 litros, que desenvolvia 390 cv de pura potência. A aerodinâmica fora arduamente testada pelo túnel de vento da Universidade de Maryland.

 O estilo do mito também merece comentários. Ele é um daqueles carros que não passam despercebidos. Além dos cavalos debaixo do capô, ainda conseguia seduzir as pessoas pelas linhas da carroceria. Sem trocadilhos, ele chega a ser poesia em movimento.

Voltando ao tema central – as corridas – a expectativa era grande quando ele embarcou para a Europa pela primeira vez. Em seu debut nas 24 Horas de Le Mans, o bólido não conseguiu terminar a prova. Apesar de tudo, estabeleceu um novo recorde de velocidade e fez a volta mais rápida.  

 A Ford não se intimidou com esse resultado negativo e, em 1965, sob o comando de Carroll Shelby, criou o Mark I. O novo modelo adotou o bloco 289, pneus Dunlop e uma caixa de câmbio alemã, mais resistente.

No mesmo ano foi desenvolvido o Mark II, com um monstruoso motor de marcas respeitáveis, vindo diretamente da Nascar: 7,0 litros e 425 cv. Trazia como novidades discos de freio ventilados e caixa de câmbio com quatro marchas. Apesar do peso de 280 kg, o novo bloco levava o carro aos 338 km/h. A arma da Ford estava pronta.

Mas, novamente, quebras e alguns outros contratempos tiraram a vitória das mãos da equipe, apesar dos carros se mostrarem muito rápidos. O que poderia estar errado? Mais pesquisa e exaustivos testes mostraram o caminho a seguir.

 No ano seguinte, o GT 40 finalmente conseguiu realizar seu objetivo e se consagrar em Le Mans. Desse modo, carimbou o passaporte de entrada para o hall da fama, obtendo as três primeiras posições na prova. A persistência finalmente triunfava.

Em 1967, repetiu o sucesso – desta vez com o Mark IV – garantindo as primeiras colocações com seu time oficial. Nesse ano, aliás, foram emplacados dois recordes – de velocidade e tempo de volta – que só seriam superados na década seguinte.

 Aqui cabe outra curiosidade sobre a corrida. O piloto Dan Gurney – que tinha um cockpit feito sob medida – após a vitória, saiu do carro e abriu a garrafa de champanhe, dando um banho no restante da equipe. Ele nunca recebeu os créditos pelo feito, mas inventou um dos maiores símbolos do automobilismo.

O leitor deve estar se perguntando – pela dedução matemática – onde estaria o Mark III. Sim, ele existiu. Mas essa versão foi feita exclusivamente para as ruas. Portanto, tinha um temperamento menos agressivo. Uma das sete unidades produzidas pertencia ao maestro austríaco Herbert von Karajan, um apaixonado por carros.

O ano de 1968 trouxe mudanças importantes no regulamento. A Ford e sua rival Ferrari se retiravam oficialmente da prova. Os carros do time foram vendidos para John Wyer e passaram a correr com uma das pinturas mais populares da época: o azul e laranja da Gulf. E faturaram novamente a disputa nos dois anos subseqüentes.

O que pouca gente sabe é que a história teve um capítulo em terras brasileiras. O piloto Sidney Cardoso, um dos grandes nomes do automobilismo nacional, trouxe um exemplar para a equipe do Colégio Arte e Instrução, no final da década de 60. A máquina estreou com vitória no antigo Autódromo Internacional da Guanabara e pôde ser vista no eixo Rio-São Paulo até 1971.  

Logo depois, foi vendida a Wilson Fitipaldi, que participou do Torneio Brasil-Argentina, no final de 71. O bólido seria vendido novamente e teve como piloto Paulo Gomes, defendendo a equipe Greco-Fabrini. Ainda na década de 70, disputou provas da Divisão 4. Atualmente, pertence a um colecionador norte-americano, que desfila com o mito em provas de carros antigos. 

Passados mais de trinta anos, a empresa resolveu dar um presente para os aficionados de plantão e lançou uma versão especial, chamada simplesmente de GT. Este carro foi equipado com um motor V8, de 5,4 litros, auxiliado por um compressor volumétrico. Isso representou uma potência de 500 cv.  

Calcula-se que, no total, pouco mais de 120 unidades do GT 40 foram construídas. O clássico bólido da Ford ficou marcado para sempre pelo estilo único, ronco embaralhado do motor e comportamento nervoso nas pistas. Um verdadeiro rei, que até hoje recebe a cortesia dos súditos quando passa rasgando a reta.

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Renato Bellote, 41, é jornalista automotivo em São Paulo e colunista do portal IG. Nesse canal traz avaliações a bordo de clássicos, superesportivos, picapes e modelos atuais do mercado.

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