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PORSCHE 356 4-CAM: O MITO ALEMÃO

A Porsche produz sonhos há exatamente sessenta anos. Seus automóveis funcionam com precisão e são feitos para agradar ao público. Em um modelo mais antigo ou em um novo em folha a maior característica de série ainda é o prazer de dirigir.

Nesta matéria o leitor vai comigo conhecer um clássico. E que clássico! O 356 A Carrera GS Cabriolet 1959 das fotos tem um estilo muito peculiar. Aliás, esse exemplar utiliza a capota rígida, o que acentua suas linhas sedutoras. O maior destaque, entretanto, é percebido quando se dá a partida. Mas vamos com calma.

Combinei com o proprietário em uma tarde de sábado. O engenheiro me recebeu e fomos direto para a garagem. Notei o interesse pelos esportivos alemães assim que me sentei. A cadeira era um banco de Porsche! Além disso, telas nas paredes e uma ampla literatura sobre a mesa indicavam que eu estava frente a frente com outro apaixonado por carros. Compatibilidade de gênios.

Antes de mais nada ele me passou a ficha Kardex do carro. Essa é uma espécie de certidão de nascimento, pela qual a fábrica tem o controle total de tudo que é produzido em Stuttgart. Notei que o modelo saiu da loja no dia 30 de abril de 1959. “Sou o oitavo dono”, comenta com orgulho.       

A história está toda documentada. Após rodar pelas Autobahns o 356 passou algum tempo na ensolarada Califórnia. De lá, enfrentou o fog inglês e retornou ao país de origem. Finalmente, há oito anos, chegou às mãos do brasileiro.

Preocupado com os detalhes e originalidade, ele enviou o esportivo para uma criteriosa restauração. O processo – executado com maestria pela concessionária Stuttgart, de São Paulo – levou praticamente dois anos.  E valeu a pena.

Aproveito este momento para falar do início da paixão do engenheiro pelos carros da marca. “Foi quando vi o primeiro 911, em 1973”, conta com uma pitada de nostalgia. E como esse sentimento vai crescendo com o tempo, correu atrás do sonho até estacioná-lo – literalmente – na garagem.

Enquanto conversávamos fiquei sabendo de todas as particularidades da máquina. Anote aí: pára-choques do Carrera GS/GT, tampa do porta-malas em alumínio, freios de competição, retrovisores do 550 Spyder e bancos-concha transportam motorista e passageiro para uma outra época. O volante VDM de três raios dá o toque de mestre ao painel.

Alguns parágrafos acima comentei que o detalhe mais interessante estava na parte de trás. Isso mesmo: o raro motor 4-cam. Quando o 356 foi para a restauração o colecionador ficou sabendo – para sua grata surpresa – que ele havia sido doado por um RS 60. Em outras palavras: um propulsor de pista.

Antes que o leitor tenha um ataque de nervos vou falar um pouco do bloco. São 1.600 cm³ de cilindrada, belíssimos carburadores duplos de alumínio Solex 44 e alumagem igualmente dupla. Além do fato de estar milimetricamente limpo, sem nenhum pingo de óleo.

Externamente só se nota que o carro é bravo por causa do escapamento dimensionado. Hora de ouvir a usina de força. Chave do lado esquerdo e partida. Silêncio no ar. O “quatro comandos” acorda, como se despertasse de um longo sono.

Logo notei que ele estava precisando esticar os músculos. O ronco embaralhado chega a ser hipnotizante. A orquestra de válvulas e – dos já citados comandos – está mais afinada do que nunca. Uma pisada no acelerador e os 140 cv de potência bruta se apresentam, com disposição para uma bela corrida. Chegou a hora da ação.

Saímos após um breve aquecimento do motor e uma checagem rápida no nível do óleo e pressão dos pneus. “Ele se transforma a partir das 4.000 rpm”, conta o zeloso proprietário. Segundo ele, dos 5.000 aos 8.000 giros a coisa fica séria. Em um quarteirão mais aberto uma acelerada de leve mostrou o porquê da fama do bloco. Chegamos ao semáforo.

O Carrera arrancou com vontade no verde. É impressionante como o giro sobe. A rotação parece não ter fim. As marchas são longas e o boxer trabalha a todo vapor. O coração pula no peito e o som do escapamento é algo simplesmente inacreditável. A melhor palavra para defini-lo talvez seja apaixonante.

“Vamos por ali. Prepare-se!”, exclama o dono. Descemos com o pé embaixo entrando no túnel Max Feffer. Lá dentro, o ronco se transformou na coisa mais gutural que eu já tinha ouvido até então. A fera alemã pedia passagem e vinha furiosa querendo mais e mais asfalto. É difícil descrever a sensação em palavras. “Acho que no túnel de Mônaco na F1 acontece a mesma coisa”, salienta com um largo sorriso. Neste momento eu me recuperava da emoção.

Após o passeio ficou mais fácil entender o motivo da empresa ter conquistado não só a vitória nas pistas, mas também uma legião de fãs no mundo todo. O segredo é que os bólidos da marca sempre foram feitos com paixão. Paixão esta que move motores, corações, mentes e foi o grande legado deixado por Ferdinand Porsche.

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Renato Bellote, 41, é jornalista automotivo em São Paulo e colunista do portal IG. Nesse canal traz avaliações a bordo de clássicos, superesportivos, picapes e modelos atuais do mercado.

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Imagens protegidas pela Lei de Direitos Autorais (Nº 9610/98)

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