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DE TOMASO DEAUVILLE: SINTONIA FINA

Quando se fala em De Tomaso a primeira imagem que vem à mente é a de esportivos de alta performance, como Mangusta e Pantera. Mas a empresa sediada em Modena também conquistou outro tipo de consumidor, preocupado com desempenho e que também prezava luxo e conforto.

O fundador da marca Alejandro De Tomaso, por sinal, foi um dos empresários mais bem-sucedidos de sua época. Com dinamismo, boas idéias e um pouco de agressividade conquistou uma fatia do mercado em diferentes segmentos. Na década de 70 adquiriu a Maserati e a Moto Guzzi, mostrando, mais uma vez, flexibilidade e dinamismo na condução dos negócios. O argentino faleceu em 2003 deixando um legado de criações memoráveis. E a marca promete voltar ao mercado com fôlego extra no ano que vem.

A história de sucesso do carro começou no Turin Motor Show, em 1970. Esse ano foi marcado também pela apresentação do mitológico Lancia Stratos. Suas linhas cheias de sobriedade lembravam um pouco o Jaguar XJ, mas com um toque italiano. Os quatro faróis na dianteira deram a ele uma personalidade própria e o desenho segue com perfeição e leveza. O conjunto ficou totalmente harmônico com a adoção das belíssimas rodas Campagnolo.   

O desenho dessa obra de arte surgiu pelos traços de Tom Tjaarda – também responsável pelo design do Pantera – e ganhou vida através do estúdio Ghia. Além de raro, atualmente é um item cobiçado no mundo todo. Foram produzidas aproximadamente trezentas unidades e o exemplar das fotos foi o número 164 a sair da linha de montagem.     

Assim nasceu o charmoso Deauville. O sedã mesclou com perfeição o requinte e a sobriedade dos ingleses com uma pitada norte-americana na parte mecânica. Já viu um deles circulando por aí? Se a resposta foi sim, provavelmente é um sinal de sorte, pois esse é o único exemplar que roda no Brasil.

O proprietário do clássico é um dos maiores especialistas na marca italiana e tem paciência de sobra para falar com propriedade sobre cada aspecto da macchina. Uma das histórias mais curiosas começa no dia de sua apresentação oficial. “Sem dúvida nenhuma Alejandro De Tomaso tinha uma personalidade singular. Ele reuniu a imprensa especializada na fábrica de Modena, às 3 horas da tarde. Neste momento seu engenheiro-chefe anunciou aos jornalistas que ele havia acabado de chegar dos Estados Unidos no aeroporto de Milano uma hora antes e estaria vindo pela estrada com o único Deauville existente”, conta.

E agora vem a parte mais fascinante. “Isso gerou uma revolta e um desconforto entre os presentes. Muita gente achou que o modelo nem mesmo existia. Outros acreditavam que a espera demoraria horas a fio. Mas para espanto geral, o argentino chegou ao pátio menos de uma hora depois do anúncio”, revela. “Os jornalistas olharam incrédulos os horários de chegada do vôo e os bilhetes de pedágio da Autoestrada do Pó. O trecho, com mais de quatrocentos quilômetros (quase a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro), foi coberto em pouco mais de duas horas, com uma média de 198 km/h!”, enfatiza sem esconder a satisfação.

Mais do que uma jogada de marketing, podemos imaginar a sensação que isso causou no público, provavelmente a mesma do leitor que está folheando a revista neste momento. É difícil pensar em um modo mais simples e engenhoso para demonstrar a versatilidade de um produto como esse, não é mesmo?

 Vamos saber mais sobre ele. “O modelo chegou ao país em 1978, vindo diretamente de Angola”, diz o dono. Mas sua primeira estadia foi no Rio de Janeiro. Após a aquisição em 1996, o carro passou por um rigoroso processo de restauração – que durou quase três anos – e voltou a esbanjar elegância.

O interior merece uma observação detalhada. Os assentos fazem o motorista e os passageiros se sentirem na sala de estar. Isso é o que pode ser chamado de conforto. A combinação do estofamento creme com a tonalidade única de azul-marinho da carroceria agrada verdadeiramente aos olhos e foge do convencional. É um toque sutil de refinamento.

A maciez elogiável da suspensão pode ser explicada pela escolha do sistema independente nas quatro rodas. O conjunto recebeu elogios também no quesito performance. Com todos esses predicados, porém, não chegou a ser comercializado nos Estados Unidos. De qualquer modo, não é difícil encontrar muitos fãs do modelo por lá em sites especializados e fóruns de discussão. 

O motor é o conhecido Ford 351 V8 com nada menos do que 300 cv brutos. Ele não é agressivo como o Pantera, mas sabia muito bem colocar a concorrência no seu devido lugar. E já que a idéia é luxo, o propulsor ronrona baixinho e sem estardalhaço. Com essa mecânica o sedã com 4,8 metros de comprimento e quase duas toneladas acelera com disposição de atleta. Os primeiros 100 km/h, por exemplo, chegam em menos de 8 segundos.

Estilo de sobra, requinte e potência. Talvez essa tenha sido a fórmula de sucesso do Deauville. Para fechar o texto vale a pena ouvir as palavras do proprietário se referindo novamente à apresentação genial do modelo aos jornalistas. “Com um golpe de mestre, sem uma só palavra, discurso técnico ou sequer folhetos de propaganda coloridos, estava apresentado o sedã mais rápido da Itália”.

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Renato Bellote, 41, é jornalista automotivo em São Paulo e colunista do portal IG. Nesse canal traz avaliações a bordo de clássicos, superesportivos, picapes e modelos atuais do mercado.

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Imagens protegidas pela Lei de Direitos Autorais (Nº 9610/98)

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