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Colecionador paranaense possui um dos Jeeps mais antigos do mundo e outras raridades em um museu particular

Nesta semana, São Paulo comemora o Dia do Antigomobilismo (28), data criada em 2010 para celebrar a trajetória de automóveis clássicos. Poucos colecionadores brasileiros têm tanto o que mostrar nessa data quanto o curitibano Mauro Bergamini, 51 anos. Na coleção de veículos que reúne em um museu particular, está um Wills Sainte Claire (1924), veículo exclusivo no Brasil.

“É o carro mais raro que eu tenho. Com certeza ninguém mais tem no país”, afirma Bergamini. A marca do veículo é a Wills, criada por um dos primeiros funcionários da fabricante de automóveis Ford, o engenheiro Childe Harold Wills. Foi ele quem desenhou a assinatura em letras cursivas que a montadora utiliza até hoje no logotipo.

Ao deixar a companhia, ele fundou a própria fábrica em Michigan e batizou o carro com o próprio sobrenome e o nome do rio que passava ao lado do prédio. Os carros Wills estiveram à venda entre 1921 e 1927, com cerca de 12 mil unidades produzidas. A baixa quantidade torna qualquer exemplar uma peça disputada por museus e colecionadores no mundo inteiro.

Wills queria fazer o oposto do Ford Modelo T: produziu um automóvel de luxo, caro e tecnicamente avançado. O resultado trazia um motor V8 com comando de válvulas no cabeçote, o que reduz a perda de energia mecânica, melhora a precisão da queima de combustível e permite que o motor atinja maiores rotações, entregando mais desempenho. “Ele estava à frente do seu tempo”, resume Bergamini.

O preço, porém, era quatro vezes maior do que o de um Modelo T e o mercado não acompanhou. “Carro muito caro, muito bem feito, sem uma marca difundida. Ele acabou fechando as portas.” Atualmente, Bergamini avalia que o Wills Sainte Claire vale mais de R$ 1 milhão. “Avaliar um carro antigo é algo muito delicado. Tem muito a ver com o valor emocional.”

Este é um dos 70 veículos do acervo, que inclui carros do pai e fica reunido no museu particular, em Curitiba. Todos os veículos são ligados semanalmente e cerca de 90% estão em condição de uso. “Se eu quiser sair amanhã com um dos carros, muito possivelmente eu vou conseguir”, diz.

O Ford de Coppola e o Jeep civil mais antigo do mundo

O carro mais antigo da coleção é um Ford Modelo T de 1913, da fase chamada “Brass Era” (época do latão), por causa do radiador e dos faróis feitos deste material. O Modelo T inaugurou a linha de montagem em série e foi produzido de 1908 a 1927, mas os exemplares com acabamento em latão são raros.

Bergamini comprou o carro nos Estados Unidos e o antigo proprietário era o cineasta Francis Ford Coppola.  O veículo é avaliado em cerca de R$ 300 mil.
A outra joia do acervo é um Jeep. No fim da Segunda Guerra, em 1945, a montadora Willys-Overland transformou o Jeep militar em veículo civil e construiu cerca de 40 protótipos, numerados de 1 a 40. Dos cinco primeiros não há registro de paradeiro até o momento, mas o de número 6, que é o Willys AgriJeep modelo CJ2 serial number 006, pertence a Bergamini.

“Algumas pessoas comentam que talvez o número 3 esteja em algum lugar desmontado, aguardando uma possível restauração, mas, tecnicamente falando, o Jeep civil mais antigo do mundo hoje é meu”, afirma. O veículo foi fabricado em 1944 e adquirido de um museu norte-americano.

Um hobby de família

Bergamini cresceu em meio a carros. O pai trabalhou em grandes empresas automotivas, depois abriu uma oficina de carburadores e o filho aprendeu a restaurar ajudando nos projetos da família. A paixão que passou do vô para o filho, agora chega ao neto, de 16 anos, que pensa em cursar engenharia automotiva.

Antes mesmo de abrir a própria oficina, Mauro começou a receber pedidos de amigos para restaurar os carros deles. “Eu falei: posso ajudar, mas tenho que cobrar, porque não tenho tempo de fazer tudo.” Foi assim que o hobby virou a Ponto 40 Classic Car Restoration, empresa que hoje atende colecionadores de vários estados.

Um grande cliente da Ponto 40 é o CARDE (Carro, Arte, Design e Educação), inaugurado pela Fundação Lia Maria Aguiar em novembro de 2024, em Campos do Jordão. O local já recebeu mais de 200 mil visitantes e se tornou referência em automóveis históricos na América Latina. “Entre restauração, importação e reparos, carros que a gente já restaurou para eles passam de 150”, calcula Bergamini, cuja equipe continua responsável pela manutenção dos veículos expostos.

Para quem quer entrar no antigomobilismo, Bergamini não esconde que o hobby tem um custo elevado, mas ele defende a prática, que pode começar com um carro antigo que já está na família. O que se ganha, segundo Bergamini, vai além do veículo: pesquisa, amizades, viagens e a preservação de um pedaço da história do país. “Faz muito bem para a gente.”

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Renato Bellote, 47, é jornalista automotivo em São Paulo e colunista dos portais Supertopmotor, Autoo e Carsughi. Nesse canal traz avaliações a bordo de clássicos, superesportivos, picapes e modelos atuais do mercado.

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