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FELINO COM SANGUE AZUL

A Inglaterra, no início da década de 60, assim como todo o mundo, passava por um período de mudanças. Na indústria automobilística predominavam os veículos compactos e mais econômicos. Por outro lado, empresas como a Jaguar mantinham a tradição de luxo e esportividade.

Mas vale a pena voltarmos no tempo para contar um pouco da história dessa fabricante de renome e que por muitas décadas foi símbolo de orgulho para todo um país. A saga da empresa, fundada exatamente no dia 4 de setembro de 1922, começou com a produção de – acreditem – side cars. Nesse período William Lyons era um apaixonado pela vida em duas rodas.

Vamos dar um pequeno salto de duas décadas. Os duros anos da 2ª Guerra Mundial interromperam a produção e ela, assim como dezenas de outras, participou do esforço bélico. Vale lembrar que a Inglaterra foi castigada pelos bombardeios alemães, principalmente no início do conflito.

Em 1947 a fábrica voltou a todo vapor. Por razões óbvias, a linha SS – que fez muito sucesso na década de 30 – foi descontinuada. Em seu lugar vieram os elegantes Mark que, além de inaugurar uma nova era, também abriram perspectivas para a indústria, dentro e fora da Europa.

No ano seguinte, outro trunfo. O XK 120 – e mais tarde o 150 – colocaram a marca de vez no mapa e nos corações de todos os apaixonados por automóvel. Poucas vezes a junção das palavras carro e esporte teve tanto significado. 

Fiz essa introdução como um aperitivo inicial. Agora se prepare para o prato principal. Vamos conhecer de perto o mito que ilustra esta reportagem. Diretamente da máquina do tempo, acabamos de chegar aos agitados anos 60.

O salão de Genebra fervia naquela noite. A expectativa estava toda concentrada em um novo esportivo da Jaguar: o E-Type. A silhueta do felino debaixo da capa atraía olhares curiosos e fazia os corações baterem descompassados. Euforia e nervosismo.

No momento em que foi revelado, os flashes tomaram conta do evento. Rapidamente, e com toda razão, ele foi eleito o “carro do show” pela revista Autosport, em sua edição do dia 24 de março de 1961. Além disso, foi capa das publicações norte-americanas Road and Track e Car and Driver. O bólido chegou a ser chamado de “o carro esporte mais avançado do mundo”.

O longo capô “escondia” inicialmente um robusto motor de seis cilindros em linha, de 3,8 litros, alimentado por três carburadores SU horizontais e um cabeçote de alumínio, desenvolvendo 265 cavalos brutos. A máquina trazia ainda grandes novidades como freio a disco nas quatro rodas e suspensão independente. Isso sem falar na emoção ao pilotá-lo, outro item de série bastante apreciado.

Navegando pela internet encontrei a matéria original da revista Autocar e passei um bom tempo conferindo os detalhes da fera. Para os leitores terem uma idéia, o E-Type cravou 244,2 km/h de velocidade máxima durante o teste. Sem dúvida, um número respeitável até os dias de hoje.

O ano de 1965 trouxe algumas novidades. O motor recebeu um aumento de cilindrada, passando a oferecer 4,2 litros. O painel deixou de ter o acabamento de alumínio, os bancos se tornaram mais confortáveis e a nova caixa de câmbio, com engates mais precisos, conquistou de vez alguns compradores indecisos.

Ele também foi estrela e coadjuvante em dezenas de filmes e séries de TV. Talvez uma de suas mais famosas aparições tenha sido como o carro do agente Austin Powers, nada discreto, com a bandeira da Inglaterra servindo de inspiração para a pintura. Em outra comédia de 1967, desta vez francesa, com o título original “Le petit baigneur”, o bólido faz diversas aparições e se destaca durante toda a película.

O clássico conversível ano 1970 das fotos é um belíssimo representante dessa época. A geração teve algumas mudanças significativas, dentre elas as lanternas dianteiras e traseiras. O motor de seis cilindros manteve a mesma potência, menos nos Estados Unidos, devido às severas leis de emissão de poluentes, onde perdeu preciosos cavalos.           

Agora vamos imaginar um passeio a bordo desta máquina. Preste atenção no estofamento marrom em perfeito estado de conservação. Imagine a maciez dos bancos. Repare no painel e os diversos botões e comandos no console central. Insira a chave e dê a partida.

A expressão “música para os ouvidos” faz todo sentido quando o propulsor está em funcionamento. A Jaguar conseguiu mesclar com maestria dois elementos díspares: suavidade e força bruta. Consegue imaginar isso? Mas não se iluda. Basta uma pisada mais forte para que ele mostre as garras e deixe a emoção falar mais alto. Tudo isso – logicamente – com uma elegância britânica.

No ano seguinte a marca lançou a terceira geração do mito. A novidade ficou por conta do motor V12, com 5,3 litros e 314 cavalos brutos. O modelo recebeu ainda rodas e pneus mais largos, que seguravam o esportivo nas curvas sinuosas, e alguns retoques na carroceria. Mas os puristas acreditavam que ele já tinha perdido uma parte de sua esportividade.

No início de 1975 ele se despediu, deixando um vazio no coração dos fãs. As últimas unidades fabricadas traziam uma placa comemorativa no porta-luvas. Depois de mais de 70.000 exemplares vendidos, o felino se aposentou, marcando para sempre a indústria automobilística mundial, com classe e elegância, duas características inegáveis dos ingleses.

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Renato Bellote, 41, é jornalista automotivo em São Paulo e colunista do portal IG. Nesse canal traz avaliações a bordo de clássicos, superesportivos, picapes e modelos atuais do mercado.

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Imagens protegidas pela Lei de Direitos Autorais (Nº 9610/98)

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